Violencia

Uma forma de se olhar para a questão da violência é observar , no nosso dia-a-dia mais próximo, como ela se manifesta nos pequenos gestos. Por serem tão do cotidiano e por parecerem tão pequenos frente à ostentação das noticias, não se dá tanta atenção. Penso, por exemplo, nas exclusões, preconceitos e desrespeitos mais que são comuns – transformar as empregadas em escravas disfarçá-las deixando, por exemplo, as roupas sujas jogadas, os jornais e revistas espalhados, para que elas os guardem. Filhos que reagem aos pedidos dos pais com muito pouco caso e até mesmo desrespeito ou como se fossem absurdos. A violência do casal que não suporta as pequenas diferenças e não consegue negociar ou ao menos escutar as divergências .Às vezes a violência se manifesta pelo silêncio. Silêncio, que, utilizado inicialmente como recurso temporário de impedir o confronto, logo se transforma em mordaça que silencia e paralisa o corpo e alma. Outras vezes, ao contrário, a violência está na vontade de gritar, de abdicar do silêncio e de tudo dizer – não tendo importância as conseqüências que isso venha a trazer. O lugar para o amor, a amizade, o respeito mútuo, a confiança, está cada vez mais limitado.
Ao aceitar que a violência possa ser banalizada e naturalizada é uma tentativa de diminuir o seu impacto, seu terror; de se diluir de seus efeitos, de não se implicar com a existência de suas manifestações e com as possibilidades, por pequenas que sejam, de sua transformação. Esta banalização da violência é, talvez, um dos aliados mais fortes de sua perpetuação. Resignado à idéia, sugestionada pela repetição da gíria de que somos ‘instintivamente violentos’, o homem curva-se ao destino e acaba por admitir a existência da violência, como admite a certeza da morte. A malicia deste hábito mental é tão nefasto e forte que, quem quer que se oponha a este preconceito, arrisca-se a ser censurado.
O risco de amordaçamento, de inércia e de fragmentações cada vez mais intensas é terrivelmente trágico para a manutenção vital da lucidez.